Uma das memórias mais caras da minha primeira infância foi um
desfile de sete de setembro a que meu pai me levou. Eu e ele.
Não consigo recordar o ano. Era na avenida Tiradentes. Acho que
fomos de metrô, mas poderia ter sido ônibus também. Cheio, muito
cheio. Mais que hoje em dia. Bambas arquibancadas montadas em tubos e
tábuas, as mesmas do carnaval. Eram “especiais”, talvez para o
governador, prefeito, talvez para parentes dos militares, talvez para
quem tivesse chegado antes. Nós, comuns, ficávamos na rua, agitando
bandeirinhas de papel impressas de um lado só, presas em palitos de
madeira pintados de verde.
Papai me botou sobre seus ombros, de cavalinho – não por muito
tempo, eu já era grandinha e ele não aguentava. Do chão e do alto,
lembro de ter visto as motos, motos brancas, capacetes brancos.
Tanques. Os jipes me impressionaram – quis e tive pequenos jipes de
brinquedo depois daquele dia. Balizas balançando bastões? Não sei
se estou misturando as memórias, baliza é coisa de desfile de
colégio. Mas lembro dos guarda-bandeiras, da esquadrilha da fumaça,
no alto, deixando rastros brancos no ar. Meu pai pediu especial
atenção para os veteranos; pracinhas da FEB? De 32? Não me
recordo. A minha recordação mais viva daquele dia, na verdade, foi
o sorvete de Itu.
Era um picolé de duas ou três cores, dois ou três sabores. Enorme,
de cantos quadrados. Lembro que o meu derretia e escorria pelos
dedos. Papai talvez tenha me limpado com um lenço, naquele tempo as
pessoas levavam lenços no bolsos, ainda.
Passamos pelo Jardim da Luz, na volta. Foi antes de o reformarem,
antes que o civilizassem. As fontes e chafarizes estavam secos, ou
quase; nos que havia água, ela era parada, densa, verde, cheirava
mal. Mosquitos voavam em torno de nós, incomodavam, picavam.
Havia um lago ou fonte repleto de moedas no fundo. Eu quis jogar uma
e fazer um pedido; meu pai deve ter falado que era bobagem. Ou não
tínhamos moedas, era naquele tempo em que mal havia moedas em
circulação, pois não compravam nada. Me inclino para ver. Há uma
fortuna sem valor ali no fundo, uma profusão de moedas passadas e
correntes.
Uma mulher chama, com um psiu. Se apoiava numa árvore, as botas
brancas, um casaco curto em rosa choque, short. Cabelos descoloridos
e maquiagem demais. Papai mandou não olhar. E explicou, ela, essas
moças todas esperando por nada ali, eram prostitutas. E resmungou
algo sobre não terem respeito nem por um pai com sua filha a
tiracolo.
Meus pais não me escondiam quase nada da vida, e, na medida em que
era possível para a minha idade, eu entendia o que era aquilo.
Imaginava outra coisa, diferente, algo misterioso e bonito, noturno,
não aquelas moças feias, maquiadas demais em plena luz do dia.
Eu tentava não olhar, mas via pelo canto dos olhos aquelas mulheres
cansadas, pobres, gordas ou magras demais. Negociavam com e eram
bolinadas por homens cansados, pobres, magros demais. Era estranho e
fascinador.
Mas fascinador também era o tamanho, a imponência da Estação da
Luz. “Veio inteirinha da Inglaterra, cada rebite”. Fiquei
pensando num navio capaz de transportar aquilo tudo, e esqueci das
mulheres cansadas e feias e pobres, e magras demais.
Perdi minha bandeirinha e só dei falta dela ao chegar em casa.
Suas palavras dançam, tão leves que são. Conseguem dançar mesmo assim, tão cheias de intensidade.
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